IX - Histórias do carreiro e candieiro

Fazenda Potreiro
A Fazenda Potreiro, era propriedade do Sr, José Pinheiro Coelho, o "Juca Pinheiro". Ficava há mais ou menos três léguas de distância da Fazenda de Tunico Sousa, meu avô. Ela fazia divisa com a fazenda de Gregório Gomes de Sousa, irmão de Tunico Sousa e esposo de Jovelina Sousa da Encarnação (filha de João Bem).
Embora eu sempre ouvi falar no seu Juca Pinheiro, eu só me lembro de havê-lo visto uma vez. Foi quando o meu primo Arnaldo Gomes de Sousa, filho de Josias Gomes de Sousa e eu fomos até a Fazenda Potreiro para buscar umas compras (um bolicho) que o seu Juca havia trazido de Torixoréu para o meu pai Marcelino Argemiro de Sousa.
E essa é uma história de minhas lembranças de criança.
“Tarde, sô Juca. Nóis tamo vino do Pé da Serra. O ti Marcelo nos mandô aqui pá buscar o bolicho que o siô trouxe pra ele”, disse o Arnaldo.
“Hum-hum! Eu truce um bolicho pro Marcelo. Mas agora tá muito tarde proceis ir imbora. Sorta os boi, dorme aqui hoje e amanhã oceis pega o bolicho e vão”, respondeu seu Juca.
“Mas o ti Marcelo vai ficá brabo, sô Juca. Ele disse que era pra nóis vortá hoje”, falou Arnaldo.
“Não, não. Num tem cabimento eu entregá esse bolicho proceis saí com ele de noite por essas estradas ruim e cheia de atoleiro. Se precisá eu cunverso com ele”, redarguiu seu Juca. “Pode ir sortá os boi. Põe eles naquele piquete ali de cima, que fica mió proceis pegá depois. E amanhã cêdo oceis vão” – concluiu.
E assim nós fizemos. Soltamos os bois e fomos dormir.
E lá no Pé da Serra, foi a noite que chegou, mas nada dos carreiros de seu Marcelo. E então ele arreou um cavalo e pegou a estrada para a fazenda de seu Juca Pinheiro, para se encontrar conosco. E assim foi até a Fazenda Potreiro, como era conhecida a fazenda de seu Juca.
Ao chegar, vendo o carro sem os bois, acordou o seu Juca e a nós também. Mandou que fôssemos pegar os bois enquanto ele conversava com o seu Juca. Arnaldo e eu fomos no piquete, trouxemos os bois, cangamos, pegamos o bolicho e tomamos o rumo de casa.
Meu pai, que ficou para trás conversando com seu Juca, logo nos alcançou, passou na frente e nos deixou com o carro.
No caminho tinha um atoleiro. E ali nós encravamos o carro. Meu pai, que na verdade, não ia muito na frente, acompanhando nossa viagem pelo cantar do carro de bois, por certo percebeu que tinha acontecido algo quando o carro parou de cantar. E voltou ao nosso encontro ali no atoleiro.
Antes de tudo, a bronca de sempre: "ocês não consegue fazê nada direito mesmo!" Depois, assumiu o comando. Pegamos os bois da guia com mais duas juntas e engatamos no argolão, no eixo do carro, para que puxassem o carro para trás. E aí, desatolamos o carro. Depois, voltamos os bois para o lugar deles e fomos em frente.
Chegamos bem tarde no Pé da Serra. Mas chegamos no mesmo dia, eu acho. Na verdade, até podia ser de madrugada. E aí já ser outro dia. A gente não tinha relógio.
Meu pai era muito positivo nos seus mandados. Se ele mandava ir e voltar em algum lugar, ele esperava que a gente fizesse isso. Se não acontecesse, ele ia atrás.
Bulixo (do linguajar "cuiabanês" - conhecido também por outra grafia bolicho), significa pequeno comércio de venda direta ao cliente, onde se encontram produtos dos mais variados, desde querosene, vassouras, enlatados, carne seca, requeijão caipira, gamelas, farinha de mandioca, feijão e até carrinhos de plástico importados do Paraguai. Local onde a comunidade se reúne todas as manhãs para comprar seu pãozinho e se inteirar dos acontecimentos. Disponível em: <http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=139961&edicao=0&anterior=1>. Acesso em: 24cesso em: 24 dez 2009.
Arnaldo e eu
Arnaldo tinha cerca doze anos, um metro e cinquenta mais ou menos, magro, cabelos pretos, rosto queimado de sol. Filho de tio Josias, o primeiro filho homem do meu avô Tunico Sousa, pois sua primeira semente gerara a menina Claudemira, que de todos acabou conhecida como Kiló.
O Arnaldo estava para o seu pai, assim como tio Josias estava para o padrinho Tunico Sousa, nosso avô. Era o segundo descendente de tio Josias. Antes dele vinha a Niusa. E depois, a Neusa, a Maria, a Cidinha e a Edirlene. Era um candieiro em fase de transmutação para carreiro.
O carro de bois era o grande meio de transporte da época. Eu sou o Izaias. Izaias Resplandes de Sousa. Seu Marcelo era o meu pai Marcelino Argemiro de Sousa. Como o Arnaldo, também fui candieiro de meu pai.
O candieiro é o guia dos bois de carro. Ele vai à frente da “fieira”, chamando os bois de guia pelo nome. “Sobrado! Sombreiro!” Eu me lembro dessa junta de bois. Muito bem amansada. Obediente mesmo. Eles iam para onde eram chamados. E às vezes até para onde não eram. Eles seguiam o candieiro para onde ele fosse. Me lembro que certa vez, acabei provocando um encravamento.
Nos vaus dos córregos, de tanto se passar por ali, a terra vai se deslocando e formando uma bacia. Nessas passagens a água costuma ser mais funda. Fica meio empossada nas bacias. Abaixo desse vau, o córrego segue em superfície rasa. Assim é costume de se colocar algumas pedras em fila no meio do córrego, nessa parte rasa, para que as pessoas a pé possam atravessá-lo sem molhar os pés. Elas passam pela ponte de pedras.
Eu e meu pai
Nós estávamos carreando lá na Gueroba, puxando umas aroeiras para o tio Antônio Muranga fazer um curral. As aroeiras eram árvores remanescentes que fora deixadas na época das derrubadas das roças e que ficaram no meio dos pastos. Madeira de lei, de cerne avermelhado, dura e muito resistente, bastante usada para fazer postes e cercas. As toras inteiras são usadas como esticadores nas cercas de arame. Nos currais, elas são transformadas em tronqueiras, obra de especialista, cuidadosamente lavrada a machado. Também são rachadas para se fazer as cercas de chiqueiros e mangueiros.
Tio Antônio Muranga
Esposo de tia Antônia Rosa de Sousa (08/04/1924-29/04/1964), que era irmã de minha avó Maria Cândida de Sousa (04/05/1904-11/10/1965). E pouco tempo depois morreu a mãe delas, minha bisavó Senhorinha Teodora da Encarnação.
A fazenda do tio Antônio Nunes de Sousa (06/10/1928) ficava numa baixada, logo depois de um pequeno córrego. Foi nesse riacho que nós – meu pai e eu – encravamos com uma aroeira. Quando chegamos ao poço da passagem, eu desci até a ponte de pedras para atravessar o córrego sem molhar os pés e não percebi que os bois foram atrás de mim, levando também a tora de madeira que encalhou no barranco. Então meu pai, que ficara para trás durante a descida, chega ao córrego e vê aquele espetáculo. Ele ficou uma fera comigo.
Pegou a sua vara de ferrão pela ponta e me deu uma varada na cabeça. A pancada foi forte. Eu caí ao chão. Então meu pai me acudiu rapidamente, preocupado com o que pudera ter acontecido comigo. Mas eu estava bem. Apenas sentia um pouco de dor na cabeça, mas estava bem. Então desatamos os bois da tora e atamos na outra ponta, puxando-a para trás, desencalhando-a. Fizemos nova troca dos bois. Aí eu passei por dentro do córrego, com água até o umbigo, chamando os bois de guias: “Vem cá Sombreiro! Vem cá Sobrado!”.
Prof.
Izaias Resplandes de Sousa
Viveu
na roça menino
No sertão de Mato Grosso
Filho de
Marcelino
Bom carreiro desde moço.
Era o candieiro
Izaias
Que à frente dos bois de guias
Gritava com forte
brado:
Vem cá Sombreiro!
Vem
cá Sobrado!
E pelo sertão afora,
o
carro de bois cantava
Sob o peso de sua carga,
que
lado a lado levava.
E o carreiro e o candieiro,
de
breve em breve embalava:
Vai Sombreiro!
Vem
cá Sobrado!
O carreiro Marcelino,
cantarolando
animado
Falava com os bois da guia,
Caminhando pelo
lado
Vai Sombreiro!
Vai
Sobrado!
E no embalo da cantoria,
As juntas de bois
puxavam
A riqueza do Brasil
que
então se produzia.
Vai Sombreiro!
Vai
Sobrado!
Também nos tempos de festa,
o
carreiro era chamado.
Enchia o carro de gente,
que
vinha de todo lado
E então lá praquelas bandas,
só
se ouvia esse brado:
Vai Sombreiro!
Vai Sobrado!
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Meus parabéns! Dessa eu escapei graças a Deus! Mas tudo na que acontecia de errado na época a culpa era do candieiro, eu não me lembro se escrevi algumas das minhas falhas na função de candieiro, mas falhei por muitas vezes e sempre levava a bronca, mas escapei da varada na cabeça.
ResponderExcluirParabéns muito bom o texto, lembrança boa do passado é sempre bom reviver.
ExcluirAtt. Antonio Carlos